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“Bons professores sempre foram e sempre serão visionários”

Hulda Cyrelli de Souza, 70 anos, é a caçula de cinco irmãos. De família humilde, pai operário e mãe costureira, aprendeu com eles o gosto de ler. A pouca escolaridade dos pais não os impediu de desenvolver o hábito de estudo e leitura de periódicos e livros da Casa Publicadora Brasileira, editora em que a filha viria a atuar como autora.

Photo: William de Moraes

Ao longo de cinco décadas atuou nos estados da Região Sul e São Paulo, no Brasil. Durante o tempo em que lecionou sempre buscou o aperfeiçoamento profissional. Concluiu a graduação em Letras, cursou especialização em Metodologia de Ensino, especialização em Literaturas de Língua Portuguesa e mestrado em Estudos e Aquisição da Linguagem.

Devido ao seu destaque e comprometimento, recebeu, em 1984, o convite para ser autora de Língua Portuguesa da Casa Publicadora Brasileira. Com um método inovador no segmento didático da época, fez a diferença ao oferecer uma nova proposta no ensino da língua: o ensino da gramática de forma prática e contextualizada primando pela leitura e pela produção textual.

Acompanhe a entrevista a seguir:

Qual a diferença entre ensinar Língua Portuguesa (e de línguas como um todo) no passado e nos dias atuais? Os desafios continuam os mesmos?

Os desafios sempre foram os mesmos, isto é, auxiliar cada aluno a encontrar e manter seu status de leitor e de autor. A escola brasileira, de modo geral, pensa que formar um aluno leitor e autor é ensinar-lhe gramática normativa. Passamos pelos conteúdos sem que estes se transformem em habilidades formadoras de competências leitora e autoral, esta, na produção de textos orais e escritos que produzam interação entre emissor e receptor. Infelizmente, pesquisas indicam que estamos longe desses ideais. Texto é tecido. Um tecido feito com palavras cujo artesão é o autor que o tece ou o leitor que dele faz uso para vestir suas ideias, transformando-as em mensagens para que outros as compreendam, sendo isso necessário a ele mesmo. Desafios sempre existiram e existirão de um modo ou de outro. Bons professores sempre foram e sempre serão os visionários. Aqueles que estão além de seu tempo, que não se contentam em reproduzir, estão sempre buscando o aperfeiçoamento para fazer frente aos desafios.

Com base na sua experiência em ministrar palestras em diferentes regiões do Brasil, o que um professor que está alfabetizando deve lembrar?

A escrita alfabética revela ao professor como a criança está pensando a forma escrita e, por isso, propicia ao mestre as condições para ajudá-la em suas hipóteses, sempre apresentando outras possibilidades oferecidas pela língua. Antes de dizer que a grafia está errada, cumpre ao professor promover atividades de análise linguística. Quando dizemos que a escrita alfabética deve ser permitida, não estamos afirmando que a escrita ortográfica ficará a critério de um insight ocasional na mente de cada criança. Estamos afirmando que a escrita alfabética servirá de análise linguística para se chegar à escrita ortográfica. A escrita alfabética sinaliza como a criança pensa sobre a escrita. No entanto, quando a criança escreve aleatoriamente, aí sim, há motivo para preocupação, pois tal escrita sinaliza que a criança ainda não compreendeu as relações possíveis com as letras do alfabeto para realizar registros pertinentes.

Você tem alguma situação para compartilhar sobre a sua experiência como professora/autora de Língua Portuguesa?

Como professora, quando eu era surpreendida por uma ideia de um aluno diferente do que eu pensara costumava dizer para a classe: “Eu não havia pensado desse jeito! Mas que ideia interessante”. Não é preciso dizer que os olhos do emissor brilhavam e que a classe adquiria confiança para expor suas ideias. Ao alfabetizar, quando os alunos liam / decifrando, segundo Cagliari, eu lhes perguntava: “O que você leu?”, “O que significa?”. Diante dessa inquirição, a mente trabalhava, os olhos se acendiam e o significado florescia. Era a gênese de mais um leitor.

Que mensagem você deixaria para os seus colegas que estão iniciando a carreira?

O magistério é a profissão da qual todas as outras dependem em sua formação, logo, profissão extremamente necessária, embora não seja valorizada como deveria. Quem a escolhe deve ser realista, quanto aos desafios, mas também, quanto às conquistas possíveis, quando a acomodação é banida e o temor é encarado como desafio. Julgo que é uma profissão para quem gosta de lutar, de se superar a cada dia, de ser proativo, de ser criativo, de ser dependente de Deus. Ser professor inclui isso e, no ensino de línguas, envolve não estorvar as crianças no sentido da leitura compreensiva das Sagradas Letras que podem fazê-las sábias para a vida e para o futuro. [Fonte: Revista CPB Educacional / 2º semestre 2016]


Nota: Artigo escrito e postado em Português

 

Olivandro Maia

Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pelo Centro Universitário de Maringá, trabalha há 12 anos com produção e edição de conteúdos digitais. Atua na função de editor de Web na Casa Publicadora Brasileira. www.cpbeducacional.com.br e www.educacaoadventista.org.br

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