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Mas ele é tão inteligente!

Os pais de Rodrigo* foram chamados na escola por causa de uma gravíssima ação de seu filho. Após o relato irrefutável da agressão cometida pelo estudante, os pais responderam: “Ah! Mas ele é tão inteligente!”

O que tem a ver a inteligência com a falha do menino? Das funções mentais superiores certamente a inteligência é a que mais desperta a atenção. A palavra inteligência está envolta em um imaginário quase que de magia, como se quem a tem, “tivesse tudo”. Frequentemente é usada tanto para classificar prodígios como para desculpar infrações, irresponsabilidades e até desvios de caráter. Assim, o que os pais realmente queriam dizer é que o fato do menino ser inteligente anulava ou compensava seus problemas de conduta e caráter.

Photo: Pixabay

A inteligência ao longo dos anos tem sido “reificada”1 ou hipervalorizada, a ponto de ser considerada como de maior valor que a justiça e a verdade, por exemplo. Por suas vias passam todas as conquistas científicas e artísticas, os avanços médicos, as maravilhas da arquitetura e a beleza das composições musicais e literárias.

Mas, como entender a inteligência? A definição clássica de inteligência é “a capacidade de resolver problemas”. Embora não esteja errada, essa definição não expressa completamente a rica dimensão da inteligência, porque, mais do que somente resolução de problemas, ela deve “criar produtos que sejam significativos em um ou mais ambientes culturais”2. (Gardner, 1994).

Nos anos 80, Daniel Goleman e Howard Gardner revolucionaram o que se conhecia sobre inteligência com suas propostas inovadoras. Gardner sugeriu a existência de Inteligências Múltiplas, colocando as tradicionais inteligências linguísticas e matemáticas em um patamar de igualdade com as inteligências artística e sinestésicas, por exemplo. Nas palavras dele: “uma inteligência não tem supremacia sobre as outras”.3 Goleman lançou a ideia da Inteligência Emocional destacando em síntese que o ser humano “em um sentido muito real, tem duas mentes, uma que pensa e outra que sente”.4

Existem mitos relacionados à inteligência, frutos da cultura popular, reforçados pela falta de conhecimento e informação. Vamos conhecer alguns deles:

Mito 1 – O aluno ‘nota 10’ é o mais inteligente. Tirar boas notas não é sinônimo de inteligência. As notas escolares só mostram que o aluno é apto para aprender as ciências acadêmicas no método formal de ensino. Os indivíduos com altas habilidades costumam ter baixas notas na escola, porque em geral não se adaptam ao sistema do ensino convencional.

Mito 2 – Homens são mais inteligentes que mulheres. Homens e mulheres alcançam os mesmos níveis intelectuais desde que tenham recebido os mesmos incentivos culturais, acesso à educação, e oportunidades sociais.

Mito 3 – O mais importante é ser inteligente. A prova da inteligência é uma vida equilibrada, baseada em boas escolhas e estilo de vida, o que está associado com a sabedoria muito mais do que com a inteligência.

Mito 4 – Podemos com segurança medir a inteligência. Os Testes de QI, famosos por seu suposto poder de medir a inteligência, foram criados em circunstâncias específicas, baseados na compreensão psicológica da época. Apesar da importância que tem ou que tiveram, sabemos hoje que é impossível medir a inteligência através de provas ou testes. Isso porque a manifestação da mesma permite tantas variáveis, que torna impossível encontrar um padrão de comparação confiável para medi-la.

Mito 5 – A inteligência (não) é hereditária. É sim, e ao mesmo tempo não é. Com o advento das Teorias Histórico Críticas, ficou cada vez mais aceitável que os fenômenos mentais superiores, dos quais a inteligência faz parte, dependem de fatores hereditários tanto quanto dos ambientais.

O importante é saber que a inteligência de forma isolada não garante sucesso a ninguém. Tomar sábias decisões com equilíbrio e lucidez, viver de modo saudável e produtivo estão relacionados mais com o livre arbítrio, fundamentado em princípios e valores, do que na genialidade. As palavras do psicólogo Joseph Renzulli, esclarecem: “O fato de alguém ter uma ideia brilhante não significa nada. Os verdadeiros protagonistas da grandeza não somente criam ideias, mas sabem transformá-las em obras proveitosas para os demais e mantê-las na verdade”.5

Portanto, a inteligência, apesar de ser um ingrediente importante na gerência da vida, não é nenhuma garantia de êxito e nem de felicidade.

* Nome fictício

Referências Bibliográficas

1 – GARDNER, 1983

2 – GARDNER, 1994

3 – GARDNER, 1991

4 – GOLEMAN, 1995

5 – RENZULLI, 1978


Nota: Artigo escrito e postado em Português.

Térbia Leal

Térbia Leal

Mestre em educação e doutoranda em Ciências Humanas com ênfase em Educação, Pós-graduação em Orientação Educacional e Psicopedagogia. Graduada em Pedagogia e Biologia. Atualmente é coordenadora pedagógica do Departamento de Educação da União Paraguaia dos Adventistas do Sétimo Dia e professora na Universidade Adventista do Paraguai. Nos últimos anos serviu como diretora de colégio, orientadora educacional, coordenadora pedagógica e professora, no Brasil e no Paraguai.
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